Estou desenhando o lápis da página 28 da minha HQ longa. Nunca desenhei tantas páginas de uma mesma história. A grande vantagem de encarar um projeto maior é o constante teste de sua resistência física e psicológica.
Aos poucos você vai se acostumando com olhar para as partes, e não o todo. É como subir em uma escada muito alta, é melhor não olhar pra baixo, e se concentrar só onde vai colocar seus pés e suas mãos, caso contrário pode é certa a sensação de vertigem. Nos quadrinhos, o paralelo a isso é focar na próxima página, ou no próximo quadrinho da página, e esquecer que faltam 60 ou 80 páginas que vão representar meses, ou anos, de trabalho.
Também estou ficando calejado em olhar para uma página e pensar: essa é das difíceis, não sei nem por onde começar. Minha forma de lidar com essa sensação de impotência é mista, às vezes uso o caderninho para fazer desenho soltos, isso ajuda a achar soluções para uma cena. Em outras vezes, eu apenas faço a primeira ideia que tive, mesmo sabendo que não é grande coisa, mas é o que consigo pra hoje. Talvez, no futuro eu consiga voltar a esta página e desenhar uma cena melhor. Mas é bem provável que vai ficar dessa forma mesmo. Porque outras páginas difíceis vão aparecer mais à frente.
Já aconteceu de voltar a essas páginas que inicialmente ficaram, aos meus olhos, mais ou menos, e não conseguir identificar qual era o quadrinho ou cena que eu não tinha gostado. Tudo parece estar no lugar certo depois de um tempo. É interessante essa sensação.
Às vezes, o que a gente precisa é só se distanciar. Talvez, aquele desenho não seja tão ruim, ou tão bom, quanto o nosso ego tenta nos convencer.
Às vezes é só questão de insistência. Ou persistência. Com um pouco de ingenuidade.

